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Lídia Jorge, entrevistada na revista Biblos por Carla Amado
"A literatura serve para inquietar as pessoas e não para as fazer adormecer”

Vinda, desta vez, diretamente do Festival Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim (mais informações aqui: https://goo.gl/KxUBsy), trazia com ela uma enorme vontade de nos falar sobre os assuntos que a preocupam no quotidiano português, sobre o Mundo e a sociedade que observa, sobre a própria sua escrita.
Receber a visita do atual nome feminino mais incontornável da literatura portuguesa, da escritora no ativo mais reconhecida das letras portuguesas, obriga da nossa parte a uma seriedade extraordinária e a um saber receber especial. O tempo que passámos com Lídia Jorge na passada semana foi, ele sim, o mais especial. As sessões incluíram uma visita ao Centro Cultural do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. em Vigo (CCP-Vigo), outra na Escola Oficial de Idiomas de Santiago de Compostela e uma terceira na Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela.
Lídia Guerreiro Jorge nasceu em 1946 em Portugal, no Algarve, terra que sempre a inspirou desde criança, anos da sua vida que soube desde logo dedicar quer à leitura, quer à escrita. Passava muito tempo sozinha ou a ver a mãe e a avó costurarem, então lia-lhes em voz alta, histórias românticas de final trágico, como as de Camilo Castelo Branco. Tinha a sorte de ter uma pequena biblioteca em casa com os grandes clássicos. Escrevia, depois, na escola, pequenas redações que contrariavam a história que tinha lido, rescrevia-as ao contrário, um desfecho mais feliz. Para Lídia, “Mas, a literatura não serve para finais felizes, não é um livro de auto-ajuda, esses são para acalmar. A literatura, pelo contrário, serve para nos provocar, obriga a pensar de outra forma, vira a vida ao contrário, serve para inquietar as pessoas e não para as fazer adormecer, tem é, a par com isso, algo de muito importante: a beleza das palavras”, dizia-nos na sessão que com ela fizemos no CCP-Vigo. E adicionava: “A literatura é paradoxal, pois inquieta, mas ao mesmo tempo cria um lugar, um prazer, sentimo-nos acompanhados por uma voz ─vamos empurrados pela voz do escritor de que gostamos e só os bons leitores sabem ouvir essa voz. A estante dos nossos livros preferidos é o lugar da nossa família essencial. Eu, a par com ser escritora, sou sobretudo leitora. Vou tentar responder a essas vozes que eu li. Fazer pelos outros aquilo que os meus livros preferidos fazem por mim”.
Recuando de novo no tempo, Lídia dizia: “As letras eram para mim uma companhia, criar uma companhia era necessário para a minha solidão e tenho também a ideia de que, ao escrever e, melhor, ao publicar, estou a criar uma companhia para as pessoas”. O seu pai teve um diário até morrer, que queimou antes da sua partida; a mãe também escreveu sempre até há bem pouco tempo e dizia-lhe que escrevia para organizar a vida. Lídia Jorge diz: “acho que eu própria comecei a escrever por sentir necessidade de organizar os meus pensamentos”.
Privar com Lídia Jorge é ter a oportunidade de ouvir alguém falar (muito assertiva e construtivamente) sobre qualquer tema da história, da literatura, da Europa, do Mundo, da sociedade portuguesa, já que ela própria acha que “a literatura não perde nunca valorização, não perde juventude, desde que os escritores se entreguem à sociedade e à própria experiência”. É por isto que os seus livros cativam e envolvem, permitem que o leitor contacte diretamente com a sua experiência na qualidade de “cronista do tempo que passa”. Lídia opina que o mesmo aconteceu com toda a sua geração. A geração de escritores da Pós-Revolução, do povo pobre, agarrado à terra, que teve de emigrar. Na opinião de Lídia Jorge, este tempo criou tramas psicológicas e conflitos muito particulares, das famílias com o Estado, com a Europa e com a própria sociedade. Surgiu, assim, uma cultura modernista em termos literários, escritores com meios para falar do social e do mundo, do psicológico interior, em termos de linguagem.
Quando perguntámos a Lídia sobre se a sua escrita é feminina ou feminista, respondeu que a sua perspetiva não é a de defender a mulher! “As minhas personagens femininas têm sido muitas vezes vítimas, mas poderiam ser homens ─como já tive personagens masculinas vítimas. As minhas personagens são figuras vítimas. A minha literatura fala das vítimas. Claro que as mulheres, as crianças e os idosos aparecem mais vítimas do que os homens. As mulheres para mim são peças fundamentais da arquitetura da sociedade, do próprio homem e da família. As minhas personagens femininas coincidem com aquela que observa e denuncia a situação, mulheres que pode parecer que não agem, porque primeiro observam muito, mas acabam por agir. As minhas figuras femininas não são sociológicas”.
Sobre o futuro, Lídia Jorge disse não ter uma visão fatalista, mas estar muito preocupada, receosa, dizendo que, tal como a revolução industrial deu origem a duas guerras, uma 20 anos depois da outra, o mundo arcaico que se descontrolou na revolução industrial, atualmente a revolução tecnológica é tão forte que, se a memória do que pode ser uma guerra não é ativada junto das pessoas e, sobretudo, dos mais jovens, os que não têm memória, podemos caminhar para uma situação muito grave e que se pode vir a parecer à I Guerra Mundial.
Lídia Jorge é hoje autora de 12 romances, 5 coletâneas de contos, vários volumes de ensaios, livros infantis, crónicas várias, artigos de jornal. A sua obra deu já origem a um filme e a uma adaptação teatral, estando traduzida para mais de 20 línguas. A sua distinção com os mais diversos prémios nacionais e internacionais (Alemanha, França) é também impressionante. São já largas dezenas as teses de mestrado, doutoramento e os ensaios sobre a sua obra, inclusivamente na Galiza.
Deixou ao jovem leitor galego o conselho de que lesse o mais possível, já que “demora 20 anos até se fazer um bom leitor” e que “sem se saber ler bem, jamais se conseguirá ter um pensamento estendido, completo e estruturado”.
Uma escritora deveras apaixonante e que desejamos volte em breve à Galiza!


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